Espiritualidade

Ilusão, ausência da autoaceitação.

Por Efigênia Armendani

Desde a nossa criação vimos construindo uma autoimagem falsa do que trazemos pelas vivências que permanecem em nossa mente e se expressam através da nossa imaginação, ocultando o eu real que insistimos em ignorar. Entretanto, no inconsciente, além de dor e angústia, também podemos encontrar a luz que nos aguarda o acesso para a autoaceitação.

” Narciso ” – Caravaggio


A ilusão está no querer ser o que não é; no se convencer que é o que pensa e fazer o impossível, para que os outros acreditem; no valorizar extremamente o que se tem como se pudessem levar para o outro lado da vida os bens materiais.

” O apego é uma grande ilusão. “

Estamos nos iludindo, quando não conseguimos lidar com nossas tormentas mentais, negando sentir o mundo em que vivemos para nos defendermos das tantas dificuldades que deveríamos enfrentar.

– Eu não me revelo. Eu sou assim como todos me enxergam. Eu preciso continuar assim; ninguém há de descobrir o que se passa comigo. Seria o caos na minha vida.

Escondendo a verdadeira identidade para fugir da angústia de não ser e não ter o que sempre quis, caminha na escuridão das inverdades, do orgulho, da vaidade, da incapacidade de perdoar­-se e perdoar o outro, da inferioridade que assina o estado de depressão que toma conta do ser.

Habituados às aparências, nos projetamos num eu ideal pensando e vivendo o que sonhamos até compreendermos que devemos sentir o que somos e viver nossa realidade. Estando sempre atentos às lições da Espiritualidade que nos coloca entre o estado de conflito interior e a autoaceitação, seremos direcionados ao autoconhecimento, que nos guiará no processo de destruição dessa autoimagem falsa, nos libertando da escravidão do passado de inseguranças, culpas, medos entre tantas outras emoções que nos perturbam.

À prática desse aprendizado, as ilusões se despedaçarão como cacos do espelho onde se refletia a sua imagem. A imagem que te fazia brilhar para os outros e ao mesmo tempo te mostrava um desgosto no olhar, por ver o ponto da dor que te atormenta desde que se entende por gente, a autoilusao.

– Somos todos, uma grande ilusão. Idealizei minha imagem de acordo com o que sou e quero continuar sendo para a sociedade. Sua aprovação em tudo que faço é vento soprando a meu favor.

Se deixar enganar pelas aparências e permitir que o vento das ilusões apague a chama do autoamor é renegar a própria essência.

Perdeu-se da razão e dos sentimentos. E sem entender o porquê, estende seu olhar ao universo, literalmente. E a sensação é de muito medo ao se perceber tão pequeno e frágil ante a imensidão. Porém, sentindo-seminúsculo no espaço indefinido entre o céu e a terra, o ser humano passa aquestionara própria existência.

Imagem : Pixabay

Mais um chamado para a reflexão.

– Quais são minhas verdades?

É preciso coragem para mudar de vida, para aceitar os desafios, as provações.

Os acontecimentos naturais ou provocados por atitudes impensadas nos desequilibram psiquicamente. E com a fé abalada, nos desviamos das metas rumo ao objetivo tão planejado. E passamos a alimentar o nosso ego, o que evidencia nossas ilusões no ser, no ter, no sentir

Com os sentidos aguçados para o que pensa ser importante apenas para si mesmo, é possível que se encontre em um futuro de solidão e desassossego da alma, sem perceber, inclusive a noite como o tempo para descansar, se refazer…

– Mais uma ilusão. Todas as noites uma insônia toma conta de mim. Com os olhos pesados, vou para a cama e não consigo dormir. Parece-me ser esse o melhor momento para pensar no dia seguinte. E me ponho a resolver os problemas, repassando todos os detalhes de cada um e traçando planos, em busca das melhores soluções. E a noite se vai, deixando a madrugada pesada me arrebatar. Num susto, acordo com o despertador, avisando que já está na hora de recomeçar…

” É preciso coragem para mudar de vida “

Imagem : Phd Psicologia

A mente continuará trabalhando, até que se consiga ouvir a própria respiração, alimento da vida, cronômetro do tempo. A prece, a meditação, a terapia, por exemplo, certamente aliviarão as tensões, além de indicar um estilo de vida saudável a se adotar.

Agradecer por respirar seria uma forma de ativar a própria consciência e reconhecer, aceitar e receber todas as oportunidades que o universo nos dispõe, sob o comando da Espiritualidade Maior.

E os Hábitos saudáveis nos levam ao equilíbrio e a alegria de viver nas ações que praticamos…

– E minhas ações são as melhores! Sempre busco formas de fazer o melhor por minha família. Não deixo que percebam minhas fraquezas, meu desânimo, e talvez por isso me sinta só…Sinto um sono pesado e muita irritação durante o dia, por passar noites inteiras planejando. Mas ainda consigo me controlar. Sigo os conselhos de amigos, me alimento bem, faço academia, cuido do meu corpo, afinal a aparência me garante portas abertas…

Iludimo-nos, quando a tudo valorizamos segundo as aparências.

E planejar o amanhã no travesseiro, se dispondo a fazer anotações entre um cochilo e outro, mantém o cérebro em alerta, atraindo doenças para corpo e alma.

– Vivo momentos de muita satisfação com os que me rodeiam. Reconheço que o fato de aproveitar a noite de insônia, para anotar tudo que me vem à mente, na escuridão, focado nas soluções para os problemas do trabalho é um feito inédito. Orgulho-me muito disso! Considero eficiência, pois consigo no dia seguinte resolver questões que nem me lembraria.

A autossuficiência promovida pelo orgulho é a ilusão de querer ser o que imaginamos que somos, ou seja, a autoimagem falsa que nos revela a pior das ilusões, a autoilusão.

O orgulho, o egocentrismo, a vaidade,…são ramificações da árvore das ilusões que cultivamos durante a existência terrena. Seus galhos vão cedendo com o tempo, revelando oauto martírio que nos afasta do que realmente importa para a nossa felicidade, como estar perto daspessoas que amamos. Até quando viver a sombra dessa arvore,  é decisão nossa.

O sistema pode deturpar nossos melhores sentimentos e ações, com julgamentos destruidores da nossa paz interior, aferindo-nos valores utópicos. Mas, a vida segue seu curso, nos oferecendo oportunidades de acordo com nossas escolhas. Portanto, a desilusão, necessária ao nosso adiantamento moral, está no sentir a emoção de viver o que se é em sua integridade, com suas verdades, em sua plenitude.

A vida é uma eterna cobrança.

Resistimos aos meios de evoluir quando não admitimos nossas limitações, nossos erros.

O tempo pode nos tornar mais flexíveis a autotransformação pela renovação da nossa mente. Situações novas vão surgindo, impulsionando o ser humano ao reconhecimento e aceitação de si mesmo, de suas fragilidades. Somos inspirados pela sabedoria dos nossos ancestrais e protegidos pela Espiritualidade no percurso evolutivo.

Mas, no decorrer da vida, pra saber no que precisa mudar, é necessário antes, reconhecer-se no ser, no ter e no sentir, pois só se leva desse mundo o conhecimento. O que se é.

Nossas obrigações impostas, na maioria das vezes pelas ilusões, nos afastam da criança que mora dentro de cada um de nós. Se permitirmos, sua pureza, seu jeito simples de ser nos farão melhores, abrindo-nos as portas da desilusão e nos libertando do “eu tenho, portanto me basto.”

Toda vivência se torna experiência transformadora para o ser humano, quando ele aprende a filtrar o melhor para si, considerando o melhor para o outro.

Estamos de passagem. Emprestamos tudo que temos. Portanto, é fundamental sabermos usufruir com cuidado dos bens materiais que a vida nos oferece com garantia de uma boa estadia, cientes que a outros passará os mesmos bens que nos foram destinados quando aqui chegamos. São ciclos que se fecham para uns e se abrem para outros, sem distinção da Espiritualidade que nada nos deixa faltar.

O apego é uma grande ilusão. Há quem busca honras vida a fora, no afã de deter poder e glória e um dia descobre que nada disso importa. E lamenta o quanto seriam benéficas à sua alma, o humilde reconhecimento pelos mínimos feitos de seus colaboradores e as atitudes de amor ao próximo.

Um dos caminhos para desapegar-se da imagem irreal que criamos de nós mesmos, é dominar o perfeccionismo nutrindo a certeza de que, ser falível não nos torna inferiores.

No decorrer da vida, sobrecarregamos o corpo físico, acumulando bens materiais entre os quais, a urna em que é depositada o nosso pó. E a saudade se espalhará entre nossos amigos, parentes…

Num leito de hospital, um vazio no peito dá passagem às últimas reflexões.

– Tanto trabalho! Dei a vida para juntar o máximo que consegui. Quase não amei. Não tinha tempo. Se me amaram, não percebi. De nada adiantou toda correria, dedicação extrema ao trabalho, noites de sono perdidas, ignorando a família e os passeios divertidos…Quanta desilusão !

Desilusão ?

Uma dor quase insuportável no desmoronar dos sonhos.

Destrói a auto imagem falsa, enquanto injeta no coração e na mente do ser humano a fé, a aceitação do eu real, a coragem, os pensamentos altruístas, revelando o momento de recomeçar, de tomar decisões conscientes no reconstruir de uma vida nova. Dói mais, no extrair da alma a esperança, bálsamo que cicatriza as feridas e vai fechando as fendas da ilusão, com o auxilio do amor.

 A dor e o amor. Ambos nos conduzem à evolução moral. Escolha. Vai pela dor ou pelo amor ?

Dessa vez, o autoconhecimento nos apresenta um pouco mais sobre as causas das ilusões e até mesmo, o que podemos fazer para nos livrarmos dela.

Aprendemos a valorizar mais o ser que o ter; entendemos que, para que haja a autotransformação, é necessária a desilusão; que a partir deuma auto análise, descobriremos uma nova personalidade e seremos intuídos a aceitarmo-nos e nos dedicarmos ao próprio adiantamento moral, de acordo com nossas crenças, com as Leis Divinas.

Sonho ou realidade? Nossa verdade está no ter, no ser ou no sentir?

Só você pode abrir a sua porta.

Escolha !

EFIGENIA ARMENDANI é atriz, contadora de estórias e orientadora espiritual . Desenvolve trabalho de arte cênica em grupos de teatro do cenário paulista . Como contadora de estórias, desenvolve um trabalho junto ao público infantil em bibliotecas e espaços culturais. Como orientadora  espiritual  atua na Casa Dr. Airton Nogueira em necessidades diversas .