O dilema das redes

(The social dilemma)

Um olhar para si mesmo através de um mundo de selfies

Por Karina Kiss

Há uma vida que estamos aos poucos desperdiçando e trocando por uma falsa e nem tão perfeita vida on line.

O dilema das redes trata-se de um documentário dramático americano exclusivo para a plataforma streaming dirigido por Jeff Orlowski ( Perseguindo o gelo, 2012) e escrito Davis Coombe( Liyana, 2017) e Vickie Curtis (The weigth of water, 2018). No qual apresenta de modo abrupto como os gestores de redes sociais conseguem manipular o sistema humano através de seus aplicativos. Frequentadores do Vale do Silício revelam como as plataformas de mídias sociais estão reprogramando a sociedade e sua forma de enxergar a vida dando a entender que os reis da tecnologia possuem o controle sobre a maneira em que pensamos, agimos e vivemos.

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Se buscarmos em 1999 ano que foi lançado Matrix, grandes questionamentos vieram a tona em nossa sociedade. Como a tecnologia poderia ser usada já que na época ainda era limitada e algo novo, como essa tecnologia auxiliaria na elaboração de novos conteúdos digitais e o mais atenuante de todos: como a sociedade se sentiria sabendo que haveria a possibilidade de uma segunda vida projetada em mundo virtual sendo moldada a imagem, semelhança e desejos do modo que bem quiséssemos. Passados 20 anos e tantos avanços tecnológicos, ainda estamos no limiar do controle de mídias sociais em nossa vida e não aprendendo a lidar com o que isso acarreta no dia a dia a curto, médio e longo prazo.

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O dilema das redes nos apresenta depoimentos de especialistas da industria tecnológica por se incomodarem justamente com os dilemas éticos que eles mesmos estavam criando, as vezes inconscientemente. O documentário retrata  o lado nocivo de como as idéias de inúmeros produtos e novidades criados no meio virtual, tinham várias maneiras de comportamento em conceito, mas que na realidade fugiram do controle. Tristan Harris, ex-funcionário do Google, presidente e co-fundador do Center for Humane Technology, é o principal entrevistado sobre como as suas ações impactavam as pessoas, durante a  melhoria do aplicativo se questionava sob o poder que a mídia social tem em  definir a rotina da vida de bilhões de pessoas, uma jogada para atrair pessoas para a rede, de acordo com os desejos delas, negociando as pessoas, vendendo para seus anunciantes.

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Nós espectadores, somos um produto com amizades, pensamentos e hábitos únicos, porém que toda a rede social conhece e utiliza isso para  nos oferecer  o melhor, nos tornando escravos de uma rede falsa  baseado em satisfação e consumo virtual. Isso é demonstrado através do personagem Ben ( Skyler Gisondo, Uam noite no museu, 2014) que viciado em aplicativos passa por inúmeras confusões externas e conflitos internos por tentar se afastar da midia social. De um modo engraçado porém muito preocupante, a conduta narrativa da personagem nos espelha sejamos adolescentes ou adultos a analisarmos que agimos igual a ele, basta ouvirmos um estalido de notificação que tiramos o foco da atividade que estamos fazendo para matar a curiosidade de saber o que há na tela. A criação do botão curtir do facebook por exemplo, foi criada apenas para mostrar que aquilo era legal, hoje se tornou um mediador de popularidade o que incita casos de depressão, baixa estima e obsessão.

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Contudo o que o documentário nos trás de mais perspicaz são os questionamentos sobre o tempo que passamos acessando redes sociais e que não  pode ser considerado saudável, os vícios adquiridos por conta de termos tudo em mãos a qualquer momento, assim como uma informação diferente a nossa rotina se torna algo entediante. O mais preocupante, mas que não nos damos conta, é a correlação entre novas variantes em casos de depressão e suicídio em jovens, com o aumento do uso das redes sociais. Não é segredo de ninguém que massageia o ego uma curtida aqui, um coração que sobe ali, mas precisamos aprender a parar de medir nossa ascensão social e carinhos de amigos e familiares ou popularidade através de ícones de redes sociais.

Nos preocupamos tanto no ser algo atrativo, que esquecemos de estar de fato. Precisamos entender que há uma vida que no mundo de fora que ainda esta em luta seja por uma pandemia ou por outros fatores, mas há uma vida que estamos aos poucos desperdiçando e trocando por uma falsa e nem tão perfeita vida on line.

KARINA KISS, atriz formada pela Célia Helena de artes e ECA. Com um currículo de mais de 40 espetáculos teatrais. Formada em Psicologia no Cinema, atuou como jornalista na folha de cultura até 2014 quando se especializou em Crítica cinematográfica com Cristhian Petermann e Ruben Edwald Filho desde então desenvolve resenhas para as distribuidoras ou em seu próprio canal.

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